Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006

O que é demais enjoa.

     Quase todos os dias ouço ou leio nos mais variados meios de comunicação observações que mais não fazem que espancar ainda mais a já violentada classe docente.

     Mas que mal fizemos nós a esta gente que parece tirar algum tipo de prazer ao injuriar-nos. Usam palavras de seda para nos chamar preguiçosos, ignorantes, incompetentes, faltosos, acomodados e favorecidos.

    

   Uns dizem que somos os mais bem pagos da OCDE... É curioso como esta notícia saiu exactamente na mesma altura em que o M. E . apresentou a 2.ª proposta para a revisão do Estatuto da Carreira Docente (que por sinal é bem mais gravosa que a 1.ª). Que dirá disto o cidadão comum? Bem, alguns talvez até confundam OCDE com CEE.

Um professor contratado e em início de carreira recebe à volta de 1000 euros. Tendo em conta que é um profissional licenciado e pertence aos mais qualificados quadros do estado, juntamente com os médicos e os magistrados, acham muito?

Se vivermos no Minho e tivermos de ir dar aulas para o Algarve o ordenado é o mesmo do colega que tem a sorte de ter a sua escola a 2 kms de casa. Não temos ajudas de custo para deslocação para o local de trabalho, nem viaturas do estado, nem subsídios de alojamento e o de alimentação é o igual a qualquer outro trabalhador. Ainda acham muito???

    

Quanto ao Ministério da Educação, esse tem uma meta a atingir e para isso segue uma estratégia em que usa de quaisquer meios para levar a sua avante:

 

     1.º Fomenta a raiva e conflitos entre as pessoas. Atira encarregados de educação contra professores, dizendo-lhes que estes últimos faltam em demasia, são preguiçosos, trabalham pouco e mal, no fundo, que formam de forma irresponsável os seus educandos. Dizem que temos medo da avaliação dos pais e isso é falso. Concordo que sejamos avaliados e que os pais também tenham uma palavra a dizer, mas para isso, os pais e encarregados de educação têm de ser conscientes na avaliação que fazem, sabendo distinguir os resultados dos seus educandos da competência e empenho do seu professor.

 

    

     2.º Cria insegurança, fragiliza as pessoas separando-as da sua terra e das suas famílias.

     A Sr.ª Ministra referiu que este ano não se fala nos professores desterrados. Pois não Sr.ª Ministra, pois uma boa parte de professores ainda não sabe ao certo para onde vai dar aulas, encontrando-se provisoriamente afecto administrativamente numa escola qualquer. Desde 2.ª feira passada que disse que se daria a publicação das  1.ªs colocações cíclicas... até hoje nada.

     Por exemplo, eu sou de Viseu, pertenço ao QZP de Braga e fui colocada administrativamente em Vizela e desde o fim do mês passado que ando cá e lá, sem saber se deva ou não alugar lá casa, pois não sei se lá vou ficar o ano todo. São 2h45m de viagem para lá e 2h45m para cá. Mas o meu caso não é único, só na minha escola, em Vizela, somos 5 nesta situação. E como nós, ou em pior situação, encontram-se milhares de colegas.

     Estas situações são desgastantes e consomem o equilíbrio mental de qualquer docente, que começa já o início do ano lectivo cansado. E é assim há 3 anos, desde que os concursos começaram a ser via Internet.

 

    

    3.º Usa os meios de comunicação social, distorcendo notícias, virando a opinião pública conta os docentes. Só a título de exemplo, quando há alguma greve, contrapõe com estudos falseados onde refere que os docentes faltam muito (nestes estudos, pasme-se, são contabilizadas faltas por maternidade e paternidade,  por casamento ou falecimento, de doença e frequência a acções de formação, todas justificadas ao abrigo da lei).

 

   

    4.º Propõe uma alteração ao Estatuto da Carreira Docente que mais parece ter sido redigida por um homem e que se demonstra nitidamente sexista, sendo altamente gravoso para a mulher docente, grávida e mãe, restringindo o direito das docentes a faltar para consultas pré-natais e de apoio aos descendentes, pois pretende que estas faltas deixem de ser contabilizadas como tempo de serviço. Também para o docente que eventualmente venha a adoecer, esta proposta prevê medidas inumanas, que podem passar por cortes bastante significativos no ordenado.

     E por fim, divide os professores em 2 classe, os professores e os professores titulares. Isto poderá criar constrangimentos e mal-estar, hierarquias desnecessárias entre profissionais que frequentemente para além de colegas são amigos (coisa rara em outras profissões).

 

 

     Com tudo isto, tenta-se desunir as pessoas, pois como é sabido, a união faz a força. É uma boa e maquiavélica técnica política do Ministério da Educação - SEMEAR O CAOS PARA PODER GOVERNAR.

 

Já agora, para os docentes desencantados com toda esta situação, visitem este blog - http://educare.blogs.sapo.pt/ - vão ter uma bela surpresa. 

Deixei lá um comentário, mas que está sujeito a homologação pela gestora do blog. Será que serei censurada? Em altura oportuna aqui colocarei integralmente o comentário que fiz a este blog e aos seus artigos.

hoje estou: irritada
publicado por soniaaandrade às 15:45
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3 comentários:
De Bufagato a 12 de Setembro de 2006 às 23:41
Perdoai-lhes, Senhor... não sabem o que dizem!

É fácil criticar.
Todas as outras profissões, que não a nossa, são por demais bem remuneradas e usufruem de regalias principescas.
Se são funcionários estatais, nem se fala, são o conluio do governo e do funcionalismo público para furtar o labor da população ordeira e vilipendiada... única força de trabalho do país!

Desculpa-me a ironia, mas são comentários que amiúde ouço... e não é que uma mentira, muitas vezes apregoada, quase soa a verdade?!

Conseguiste surpreender-me nos artigos que encontrei aqui.

Abraço
De Arte por um Canudo a 14 de Setembro de 2006 às 00:39
É muito fácil atirar pedras para os telhados dos outros sabendo eles que têm telhados de vidro. Assim fazem porque enquanto a classe docente é atingida com estas calúnias, as outras classes que batem palmas, sabem muito bem que só assim se livram que se virem para eles. É a forma mais ridicula de se desresponsabilizar acenando com a cabeça a tudo que seja contra a classe docente. Sempre ouvi dizer que o mal deste país é a falta de produtividade e onde está ela? Será que é medida por cabeça de aluno para responsabilizar os professores por todo o mal que vai neste país. Poderá ser mais tarde a tal falta de produtividade por falta de formação, mas neste momento são os professores actuais que estão a levar pancada de toda a forma, enquanto que os responsáveis actuais pela tal falta de produtividade batem palmas. Mas a vez deles chegará..Excelente Sónia. Boa sorte para Vizela. Bjs.
De soniaaandrade a 14 de Setembro de 2006 às 22:37
Se há coisa que abomino é a injustiça. E injusta é a forma como temos vindo a ser tratados pelo Ministério da Educação e pela opinião pública.
Nem todos os docentes são um exemplo a seguir (temos consciência disso), embora eu tenha plena certeza e afirmo-o veemente que a esmagadora maioria é formada por profissionais competentes, responsáveis, empenhados e possuidores espírito de missão para com o futuro. Daí, que ache indecente a tentativa de denegrir a imagem de uma classe que é formada por milhares de brilhantes profissionais, alegando que há umas poucas dezenas que são menos responsáveis.

Fico contente por saber que ainda há quem deseje repor a justiça e reconhecimento que é devido a esta classe de profissionais, cujo dia-a-dia é dar amor, carinho e saber aos filhos dos outros.

Bem-haja Bufagato e Arte Por Um Canudo.

Abraço cheio de saudade Agostinho.

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